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 Muletas
 

O som das muletas anuncia a chegada de Érica, que senta no sofá da sala do apartamento do subúrbio do Rio de Janeiro para assistir TV junto à seus pais. Érica teve uma paralisia infantil que lhe comprometeu os movimentos das pernas, usava muletas desde pequena e estava com 22 anos. Érica estava cursando Sociologia, curso almejado por seu pai e deixado de lado por falta de recursos financeiros. Seu Jorge pergunta para a filha:

- Largou o computador?

- Vim assistir um pouco de TV.

Seu Jorge investia suas escassas economias nos estudos da filha, comprara um computador e pagava a faculdade. D. Marta não concordava com estes gastos, que achava desnecessário:

- Essa menina não vai conseguir sucesso sendo desse jeito.

Seus pais não percebiam, mas Érica ouvia esses comentários e mergulhava ainda mais nos estudos. Ela sabia que sua mãe estava errada, o sucesso profissional viria, mas do sentimental ela própria duvidava, os homens não a viam como uma mulher.

Quando não estava estudando, Érica se distraía na Internet. Sua vaidade feminina não permitia que contasse às pessoas que conhecia pela Internet que usava muletas. Tinha o rosto e os cabelos muito belos e bem cuidados e suas fotos não mostravam sua deficiência.

Entrava muito em salas de bate-papo, e , em uma dessas salas, passou a encontrar freqüentemente um rapaz que morava em Teresópolis e tinha 25 anos. As fotos do rapaz revelavam um belo rosto, eles passaram a conversar pelo Messenger. Érica ficou sabendo que Ricardo cursava Direito e tinha gostos parecidos com os seus.

Ricardo tanto insistiu que Érica lhe deu o número do seu telefone:

- Oi gata, tudo bem?

- Tudo bem.

- Estou pensando em passar o próximo feriado no Rio.

- É?

- Quero te conhecer.

- Não sei...

Érica ficou nervosa com a intenção de Ricardo em vir conhecê-la, ele não sabia que a moça usava muletas e ela não encontrava coragem para falar, Érica temia desapontar aquele rapaz tão bonito e simpático. O feriado chegou, e com ele o aumento da apreensão de Érica, o telefone toca:

- Já estou no Rio, Érica, diga aonde quer me encontrar.

No banco do shopping, Érica está sentada com as muletas encostadas ao seu lado. Ouve o som de alguém chegando, não são passos comuns, o belo rapaz se aproxima com suas muletas e um sorriso no rosto.